Trouxas Dolce & Gabbana

Os trouxas Dolce & Gabbana continuam criando problemas para a própria marca ao distribuir ataques online e comentários preconceituosos sem filtro. O que é controverso dada a proximidade de seu trabalho com o público LGBTQ+ e as divas pop.

Acompanho sua história desde sempre, pois suas iniciais eram o símbolo de sucesso quando passei a desbravar a cultura gay que fervilhava nos anos 1990, nos primeiros passos enquanto criança viada. Não apenas um sucesso financeiro, no sentido de passar a consumir roupas de marca, mas o sucesso de ser uma bicha fina. Isso significava ser aceito.

A situação LGBTQ+ hoje está longe ainda de estar confortável, mas naquela época a dificuldade maior era ser você mesmo entre os próprios amigos. Muita gente ainda era obrigada a manter uma vida dupla. Os poucos lugares abertamente gay deixavam a pessoas marcada para sempre _ser visto em um bar desses era atestado eterno de homossexualidade.

Por mais que se manifestem a favor da família tradicional, firmando suas raízes italianas e o conservadorismo católico que predomina no Sul do país, foram os trouxas Dolce & Gabbana que deram passaporte para um gay ser visto como uma pessoa refinada (bons exemplos dessa figura é todo o conceito do Queer Eye original, ou Will and Grace.)

Foi em 1990 mesmo que a lançaram a linha masculina, cinco anos depois da primeira coleção feminina os projetar como uma das maiores representantes do prêt-à-porter vindo da Itália. No ano seguinte Madonna vestiu um corset da marca para a estreia de “Na Cama com Madonna” em Nova York (o próprio filme já apresenta essa ideia da “bicha amiga” como algo legal e moderno, mesmo que ainda tratando como animal de estimação). Eles fizeram depois o figurino das turnês Girlie Show, de 1993, e Drowned World, de 2001.

O primeiro perfume masculino é de 1995, Dolce & Gabbana Pour Homme, que eu lembro até hoje como o cheiro da primeira boite gay que fui na faculdade já no fim dos 90s: a Disco Fever, no lugar da famosa Gent’s, em Moema. A gente apelidou carinhosamente como a fragrância Doce Bacana.

Tudo isso sem nunca perder o apelo ao público masculino em geral. Até hoje veste também os heteros com ternos ajustados e cuecas com logotipo no elástico. Principalmente os esportistas, que gostam de um estilo flamboyant, por conta das parcerias com o time de futebol AC Milan, Chelsea FC e a seleção italiana.

Desde 1995 eles começaram a causar mal-estar com a imprensa internacional, ao declarar que a inspiração de sua coleção daquele ano eram gângsters norte-americanos. Mas é nas redes sociais que os trouxas Dolce & Gabbana soltam as maiores asneiras, sem o menor filtro.

A mais recente foi com xingamentos individuais na conta de Stefano Gabbana no Instagram a críticos de sua campanha em torno do desfile que faria na China, um dos mais importantes mercados do luxo global.

Ao mostrar uma modelo chinesa tentando comer pratos italianos e usar os palitos como talher, eles foram acusados de caçoar da cultura oriental e perpetuar estereótipos negativos. A marca depois se desculpou e disse que as contas foram hackeadas, mas o desfile foi cancelado.

Em outra ocasiões, já chocharam também Kate Moss, Victoria Beckham, Maria Grazia Chiuri; chamaram de sintéticas as crianças concebidas por fertilização in vitro (Elton John e Ricky Martin meteram a boca!) e ainda por cima os trouxas Dolce & Gabbana apoiam Melania Trump… Mas seguem lançando coleções com temáticas regionais ou gay, pegando onda no próprio boicote levantado por celebridades.

São ainda uma empresa forte, tocada pelos fundadores e sem fazer parte de um grande grupo. Diferentemente de seus concorrentes, tem a maior parte do faturamento vindo de roupas, ao invés de acessórios e perfumes. Mas com essa caricatice de vaidade, xilique e novo-riquismo, imprimem uma péssima imagem na comunidade. Vão dar muito trabalho de relações públicas para ser feito nos próximos anos. Bom que estão sendo cobrados por isso.


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