João Silvério Trevisan

Esta é a versão na íntegra com o escritor João Silvério Trevisan para reportagem na segunda edição da revista “Brazilian Homo”, de Juliano Corbetta, com fotos de Pedro Pinho.

Como tem sido amadurecer sendo um homem gay no Brasil?
João Silvério Trevisan – As pessoas me procuram muito para falar sobre maturidade, eu tenho a impressão que eu sou o único viado de mais de 60 que sobreviveu, francamente… Isso pode ter um lado meio jocoso, mas também um outro lado que é preocupante. Obviamente, a questão toda da solidão não é uma invenção. Quando ela não existe de fato, ela está sempre assombrando a terceira idade de LGBTs, por motivos absolutamente óbvios, como consequência de uma história vivida à margem social. Ainda que as pessoas não estejam à margem, a heteronormatividade de fato cria essa margem para as pessoas que não estão incluídas. E elas, portanto, automaticamente, se veem relegadas, mesmo quando não têm consciência disso. Eu conheço um monte de viados, inclusive mais velhos, que de fato dizem que “é assim mesmo, tudo bem”. Eu digo “não, não é assim mesmo.” 

No período que eu vivi nos Estados Unidos e nos contatos que eu tenho com amigos americanos, também ficou muito clara essa preocupação com a terceira idade, inclusive na criação de grupos que possam atender às necessidades dessas pessoas, que estão totalmente relegadas à solidão ou com doença e que precisam de ajuda. E sempre me incomodou muito o fato da comunidade LGBT no Brasil não ter consciência dessa necessidade e dessa problemática. Há muitos anos tentei criar grupos para atender a terceira idade LGBT, especialmente gays que eram mais próximos da minha vida e da minha experiência. A experiência durou pouco e não foi legal porque o contexto ficou perverso: acabou se criando desconfiança de que nós estávamos tentando roubar essas pessoas a quem estávamos querendo ajudar

Então, de fato, esse problema existe, mas eu acho que isso melhorou bastante de uns anos para cá. Creio que já emergiu uma consciência muito clara de que existem LGBTs que envelhecem, que não morrem antes de envelhecer e obviamente não viram purpurina. E que isso, no contexto social e cultural heteronormativo, obviamente joga essas pessoas para uma situação extremamente desfavorável, como se já fosse uma espécie de destino. E nós sabemos que o destino é muito palpável, não existe essa coisa abstrata. A diferença de quando você amadurece como LGBT, além da experiência vivida, é existir nessa circunstância que eu acabo de descrever. E não é uma questão de hoje, existiram gays idosos em toda a história da humanidade, quando chegaram a sobreviver… Mas existiram e sobreviveram, muitos. 

Retrato em preto e branco de um homem idoso com cabelo branco e expressão pensativa, segurando óculos em uma mão e com a outra mão no bolso.
João Silvério Trevisan, por Pedro Pereira

Não há segredo nenhum em envelhecer enquanto LGBT. Se você tem algum tipo de consciência sobre a sua vida, sobre o seu possível apagamento de uma sociedade heteronormativa por você ser dissidente, então claramente você vai perceber que a sua vida é uma vida que tem um espaço que você vai construindo, não é? E esse espaço significa uma experiência mais pesada do que a experiência heterossexual, obviamente, mas com muitos elementos que compõem o mesmo quadro de, digamos, vantagens e desvantagens. Então, é essa a minha resposta quando me perguntam: “Como era no seu tempo, como é hoje?” Eu não tenho que dizer que o meu tempo era melhor nem pior. No meu tempo não tinha bancada evangélica, mas tinha outras coisas muito ruins. 

Hoje nós temos essa desgraça, entre outras tantas, que é a bancada evangélica, muitíssimo bem organizada, que faz questão de dizer que LGBTs não passarão por cima delas. Mas temos uma série de outras vantagens, não apenas as leis, que obviamente são muito importantes, mas a própria comunidade. E aí está o ponto. É a comunidade que faz a própria comunidade em última análise. Ninguém vai fazer uso de uma varinha de condão para dizer agora vocês estão salvos, agora vocês são pessoas felizes. Não. É a consciência política da comunidade que faz isso. Então, o ponto onde eu quero chegar é este: a comunidade LGBT no Brasil, tal como eu conheço retrospectivamente, ela teve um avanço imenso do ponto de vista da sua consciência política a respeito da sua presença nessa sociedade extremamente agressiva. 

Essa é a mesma comunidade que vai na Parada LGBT, que não caiu do céu, foi construída a duras penas. Eu sei muito bem porque eu estive presente na sua construção e estou apoiando firmemente, mesmo quando dizem que aquilo é um Carnaval fora de hora. Beleza, é Carnaval fora de hora, porque nós estamos celebrando o nosso amor. Pronto. Quer coisa mais política do que essa? Nós estamos ensinando este país a amar quando a gente vai para uma parada. Eu pego o metrô, porque eu quero saborear desde o transporte público aquele bando e a sua felicidade de ser quem são, gritando dentro dos vagões com os olhos brilhando, uma intensa alegria de ver o que essas pessoas conseguiram conquistar: o direito de ser. 

André do Val e Sergio Amaral

É muito provável que a velhice LGBT, daqui por diante, vai ter algumas qualificações muito especiais que não tínhamos no passado, isso sim. Mas afirmo e reafirmo: isso acontece por conta do crescimento da consciência política da própria comunidade. Nós estamos elegendo as figuras mais fantásticas da política brasileira para o Congresso, cara! Você quer coisa mais importante do que isso? Nós já colocamos representações significativas e avançadas preparando o Brasil do futuro. É isso que eu tenho a dizer: envelhecer é uma coisa que supõe o futuro, ainda que você seja jovem. E se você não tiver consciência política, você não vai pensar sequer na sua velhice.

“A vida não existiria sem o amor!”, João Silvério Trevisan

Você diria que essa percepção de que são poucos gays maduros sobreviventes tem a ver com uma mudança de demografia no período de HIV/AIDS?
João Silvério Trevisan – Não, muito antes. Porque houve um apagamento. Eu estudo muito isso, eu trabalho muito nas minhas pesquisas, além do “Devassos no Paraíso”, continuo escrevendo prefácios, artigos, análises. Eu tenho uma senhora biblioteca aqui e minha pesquisa para os livros e isso é o suficiente para você saber que há um apagamento sistemático de tudo aquilo que não concorda com a heteronormatividade, inclusive no passado. Quando você estuda o passado, você vê que Berlim, no começo do século 20, era a Nova York do período, no sentido de liberdades sexuais e de luta por direitos LGBTs. Na cidade havia um número razoável de clubes e, inclusive, de jornais dirigidos para públicos específicos dentro da comunidade. Você tinha Magnus Hirschfeld, por exemplo, uma grande liderança, que criou todo um trabalho de luta contra o parágrafo 175, que criminalizava no Código Penal Alemão as questões LGBTs, as práticas dissidentes da heteronormatividade e a identidade de gênero. Ele dava uma importância imensa para o travestismo no período. E o nazismo apagou tudo isso. 

A primeira coisa que os nazistas fizeram foi invadir os centros de estudos e tacaram fogo em todas as pesquisas e toda a biblioteca do Magnus Hirschfeld [médico e sexologista judeu alemão, fundador do Comitê Científico-Humanitário e a Liga Mundial pela Reforma Sexual]. Isso é o apagamento. Então, a gente não tem notícia de que isso aconteceu em Berlim. Você vai olhar mais para trás, você vai ver no século 19, havia romances franceses que já falavam de amores entre garotos. Você encontra feministas que já mencionavam, além das questões mais comuns dentro do feminismo, o direito de amar entre mulheres. Ou seja, não existe senão a possibilidade, ao olhar para o passado, de constatar que o apagamento é sistemático. Portanto, eu pensei muito na Pré-História para o romance que eu estou escrevendo, o terceiro volume da trilogia autobiográfica, e termino exatamente pensando no primeiro casal de homens que, dentro de uma caverna, se tocou e percebeu que estava com tesão. Maravilha, isso vem de lá! Não tem como a gente achar que começou ontem.

O chato de tudo isso é que é muito difícil você ver o horizonte como se nada tivesse acontecido. Nós agora estamos, por exemplo, diante da hipótese de um grande apagamento, com o fascismo voltando à toda. Isso me preocupa imensamente no sentido da minha velhice. Na Parada LGBT de São Paulo de 2025, foi exatamente esse o tema: “Envelhecimento LGBT”. E a minha fala na abertura eu concentrei exatamente nessa ideia de que o fascismo está voltando. E nós temos tudo para sermos uma grande muralha contra o fascismo. Se nós não tivermos essa consciência, a gente está praticando um ato suicida, porque nós somos, sem dúvida alguma, as primeiras vítimas dos fascistas. Mencionei lá a Frente Nacional Antirracista, que está se preparando para as eleições de 2026, porque a extrema-direita está entrando com tudo para preparar o seu caminho. E o Trump é o grande motor disso tudo atualmente.

Foto: Igor Santiago

Como ficam essas nuances dentro da comunidade? Como os gays jovens podem se preparar para a sua velhice e a da comunidade LGBT, independentemente das divergências políticas?
João Silvério Trevisan – Isso não é um lugar comum. Você me faz uma pergunta que eu não tenho condições de responder. Cada experiência pessoal é única. Eu não tenho o que aconselhar para as pessoas. Eu acho que nós simplesmente temos que garantir a nossa consciência de estarmos no mundo. A partir daí, meu amigo, se você quiser se drogar todos os dias, é problema seu, se você quiser amar alguém ou se você quiser amar cinco ou 50, é uma questão sua. A única coisa que eu posso realmente é mencionar a questão da consciência política. Nós estamos no mundo e nós, quer queira quer não, temos um papel político, porque estamos em interação com esse sistema, no qual estamos mergulhados, mas ao qual também temos a condição, o direito e o dever de responder. 

Por isso, eu falo sempre da Parada, porque eu acho que é um exemplo e uma referência inestimável para a comunidade saber quais são as suas perspectivas. Jovens LGBTs hoje têm muito mais alternativas, mas ao mesmo tempo elas não podem esquecer de olhar para trás e verificar o que é que aconteceu, porque isso é fundamental para prever o que vai acontecer com elas e como vão ser as suas vidas. É nesse sentido que eu posso dizer que a velhice pode trazer algum elemento para essa previsão, mas a partir do que já aconteceu no passado e não alguma coisa centrada no meu próprio umbigo enquanto idoso. Por isso eu faço referência à quantidade enorme de idosos LGBTs que já viveram na história da humanidade. Essas pessoas estiveram lá e elas vão continuar existindo. E o que elas podem oferecer é exatamente o que da sua prática no passado tem disponível para as novas gerações. Eu, por exemplo, tenho a consciência clara de que a minha obra está sendo escrita para as próximas gerações.

Você têm saído? Qual seu status de relacionamento?
João Silvério Trevisan – Eu conheço o ABC Bailão desde os tempos de HS [Homo Sapiens] que funcionava ali. Houve mudanças estruturais, mas frequentei bastante aquele espaço. Assim como frequentei a rua Vieira de Carvalho e o Largo do Arouche em São Paulo. Digo frequentei porque eu atualmente estou um pouquinho esfolado. Então eu estou saboreando outras coisas um pouquinho mais sutis. Continuo tendo um relacionamento importantíssimo para mim, eu não existo sem o amor e é por isso que eu tenho um compromisso com a minha batalha pelo amor. Pra mim, o amor é tão importante quanto a vida. Aliás, a vida não existiria sem o amor.


Descubra mais sobre André do Val

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Comenta, vai!

Posts

Descubra mais sobre André do Val

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading

Descubra mais sobre André do Val

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading