Sobre ser viado…

Cinto

Me gritaram “aê, viado” hoje na rua e demorei pra entender o porquê. Um cara num carro cheio de gente passou numa avenida movimentada e berrou com os pulmões bem abertos. Ainda bem que eu percebi logo que eram moleques saindo animados do boteco, antes de me virar para dar tchau achando que era um amigo, porém foi quase… Aí fiquei pensando no quê o tal pode ter visto em mim, andando na rua sozinho, saindo da faculdade, que tivesse dado nele o clique: “um viado!”

Já faz um tempo que deixei de lado um estilo über-fashion para adotar o look mais casual-cool, coisa do trabalho. Então juro que não era uma roupa muito exuberante nem nada: uma camisa xadrez (um vichy bem miúdo, preto & branco), uma chino cáqui levemente mais curta, um tênis daqueles vintage de corrida (sem molas) e meias soquete brancas (super bofe!).

Não dava pra catar tão rapidamente que eu era viado, acredite! Pensei que pudesse ser alguma mão boba que tivesse escapado, mas esta é uma coisa que eu me treinei bem a não fazer. Pois elas estavam lá, em punho firmíssimo como se estivesse preso por uma tala anti-desmunhecagem. Até dedilhei sobre a palma para confirmar sua posição sem ter que olhar pra baixo. Demonstrar insegurança é péssimo nessas horas, vai que ele resolve descer do carro e estender o papo.

Rebolar também é outra coisa que desaprendi logo por questão de sobrevivência, então tenho certeza que não estava requebrando. Problema seria se estivesse dando uma paradinha, pra esperar o farol de pedestre. Ou se estivesse tocando Beyoncé no iPod.

Logo lembrei dos acessórios. Poderia também ter sido a minha mochila laranja. Mas laranja nem é tão gay, vai, e no escuro imprimia ocre ou mostarda. Só faltava esta ditadura da cartela de cores em pleno 2013. E outra, poderia ser uma maxi-clutch, uma bolsa carteiro, uma doctor bag, muito pior! Também não daria pra ter visto daquela distância a pulseirinha de miçangas de um lado e a de tiras finas de couro enroladas no outro.

Segui elocubrando sobre direitos humanos, individualidade versus coletividade, a noção de moda dos héteros médios, gêneros, números e graus… Foi quando eu me lembrei do cinto tressê étnico, escolhido justamente para ornar com as pulseiras. Colorido, bem colorido. Cheguei à conclusão que não tinha como, eu estava mesmo bastante viado.

Até eu, se me visse na rua, teria gritado: “aê, viado!”

(texto publicado originalmente em fevereiro de 2013)

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