Martin Margiela é o homem que pôs o avesso das roupas na moda e pôs a moda do avesso. Se você rastrear as fontes de inspiração dos principais diretores criativos de hoje, todas as referências de como fazer moda apontam para ele.

Na falta de um termo melhor, sua moda era categorizada como “desconstruída”, porque usava costuras aparentes e desfiados nas barras que ele fazia com cuidado meticuloso. Porém, é mais do que isso. Martin Margiela era um arqueólogo da moda e tratou o avesso como elemento estético, ao expor as estruturas internas das roupas e dos manequins.

Pode-se dizer que ele criou a anti-moda. Ou a metamoda, porque ele fazia roupas sobre roupas, e tem uma visão muito peculiar e muito precisa sobre o processo e a arte de fazer roupas.
Ao contrário dos estilistas de sua época, ele foi uma antítese ao glamour e à cultura de celebridade dos anos 1980. Não aparecia nem ao vivo nem em fotografia, há muito poucas imagens dele e as que existem são muito antigas. Não dá entrevistas individuais, apenas em nome da Maison Margiela.

Nem as etiquetas da marca levam seu nome. Você precisa saber quem é Martin Margiela para reconhecer uma roupa sua. Uma dica: elas são costuradas com quatro pontos visíveis no exterior, justamente para que possa ser retirada e mostrar apenas o design e não o prestígio do nome.

Ele trabalhou de 1984 a 1987 com Jean Paul Gaultier. E sua marca própria foi lançada em 1989, com uma assinatura criativa muito forte que sintetiza a moda urbana e minimalista dos anos 1990. Os principais elementos já apareceram nas primeiras coleções e são ressignificados até hoje. Vou descrever alguns pra você.

Sua linha principal é a Artisanal Production, em que trabalha com a recriação de peças, tecidos e acessórios vintage para novas criações. Ou seja, ele fazia upcycling antes de existir este termo, transformando objetos banais como luvas de couro ou cacos de porcelana em peças de alta-costura. Um exemplo é o vestido de plástico, que foi redesenhado em várias ocasiões.




Logo no primeiro desfile em 1989, ele já mostrava modelos com o rosto coberto por véus de musseline e gaze, pra não desviar a atenção dos produtos e criar uma silhueta uniforme e impessoal, uma reação clara à era das supermodelos.
Com o passar dos anos ele passou a usar outros elementos de ocultação, como camadas perucas invertidas e máscaras de cristais e bordados ou até mesmo capuzes de elastano, transformando as modelos em manequins vivos.



Desde 1990 ele cobre roupas e acessórios com camadas de tinta branca, sem acabamento uniforme. Serve também como ideia de maquiagem para os desfiles. Esse recurso, conhecido como Bianchetto, aparece também no trabalho de Helmut Lang poucos anos depois.



Na coleção de inverno 1992, ele apresentou essa malha de lã feita a partir de meias militares reconfiguradas de modo a usar a costura do calcanhar para desenhar ombros, busto e cintura.



Em 1995 ele lança a bota Tabi, esse é o nome da meia japonesa usada com sandálias de dedo. Ela tem um salto com o mesmo diâmetro do calcanhar humano, essa divisão característica na frente e é vendida até hoje.


Em 1996 ele desfilou uma coleção com o efeito tromp l’oeil, que é a impressão fotográfica de alguma textura ou silhueta que dê uma ilusão de que a roupa é algo diferente do que é. No caso dele, ele estampou motivos e padronagens invernais em tecido branco, leve e transparente, brincando com esse efeito de contraste.

Sempre com um olhar autorreferencial para o fazer moda, ele desenhou roupas com a mesma silhueta e material que os manequins em que são feitas as roupas em um ateliê de costura, para a coleção Stockman, de 1997.


O casaco edredom é de 1999, de algodão recheado com plumas e em formato quadrado como se fosse um edredom mesmo, com mangas.


Entre 2000 e 2002, desenvolveu uma pesquisa de escala a partir de peças tamanho 78 e costuradas no corpo dos modelos para que servissem corretamente, criando novas proporções e modelagem.

De 1997 a 2003, ele foi o diretor-criativo da Hermés e criou a base visual do que conhecemos hoje como quiet luxury: silhuetas amplas, sobreposições leves e cartelas de tons neutros em looks monocromáticos.


A marca foi vendida ao grupo da Diesel em 2002 e ele se aposentou oficialmente em 2009, vivendo no anonimato e trabalhando em projetos de artes plásticas que usam o corpo como base.
Eu fui no desfile de 2008 que é considerado o seu último ato, e que ele apresenta a criação coletiva de seu ateliê, que seguiu por cinco anos sem ter um nome de destaque.


Essa estrutura durou até a entrada de John Galliano, que retornava depois de seu intervalo após a saída polêmica da Dior, e ficou até 2024, sendo substituído pelo estilista Glen Martins, atual diretor-criativo.







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