A edição 2026 do Dragão Fashion Brasil ocupou Fortaleza com uma semana de moda, música e negócios, além de iniciativas em torno de profissionais criativos e artesãos de todo o Brasil e especialmente do Ceará e dos estados do Nordeste.

Foi uma programação intensa de atrações, com 40 desfiles entre estilistas consagrados no Brasil e no exterior, projetos locais que definem o que é a moda cearense hoje e estudantes de moda de todo o país. Veja a seguir um panorama do que chamou atenção no evento e os destaques em moda masculina apresentados nos desfiles, ainda um perfil com as marcas de moda urbana feita em Fortaleza.

Dragão Fashion Brasil

O Dragão Fashion Brasil tem como missão destacar o potencial criativo dos estados do Nordeste, trazendo os trabalhos manuais como elemento essencial de diferenciação e acabamento de luxo. Também ajuda a movimentar a economia criativa do estado ao envolver faculdades, pequenos empreendedores e trabalhadores da indústria.

As apresentações foram além das salas de desfiles principais, ocupando pontos conhecidos da Praia de Iracema, como a Rua dos Tabajaras (uma espécie de boulevard bem charmoso com lojas e restaurantes, como o disputado Mar de Rosas), o Estoril (prédio histórico tombado como patrimônio cultural que já foi um clube de soldados dos EUA na Segunda Guerra e depois reduto boêmio, mas que hoje funciona como centro cultural e sede da Secretaria Municipal de Turismo) e a recém-reformada Ponte dos Ingleses.

Teve ainda um concurso de faculdades de moda e uma seleção de marcas apresentadas pelo projeto de promoção da cultura nordestina de moda Nordestesse, de Daniela Falcão; e pela nova iniciativa Mãos da Moda, que aproxima novos designers de artesãos, realizada por ela em parceria com a Riachuelo.

Além dos desfiles, teve uma agenda paralela de shows abertos ao público (de Ana Canas, Fernanda Abreu, Montage), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, onde também foi realizada uma feira de negócios com showroom das marcas participantes no evento.

O dragão do mar

O Ceará é associado à figura do Dragão em homenagem ao líder abolicionista cearense conhecido como Chico da Matilde, que recebeu esse apelido após liderar uma greve histórica no porto de Fortaleza em 1881 que teve início com a recusa de jangadeiros cearenses em transportar escravizados que seriam vendidos para as províncias do Sudeste. Essa rebelião paralisou o mercado escravagista na capital, impedindo o tráfico negreiro na ocasião e levando o Estado a ser a primeira província a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

O apelido Dragão do Mar surgiu no Rio de Janeiro, em 1884, quando Chico da Matilde viajou para a então capital do país em uma jangada e foi associado a um guardião feroz e invencível que lutava pela liberdade. O nome é amplamente utilizado no Ceará, batizando importantes instituições locais, como o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, e o próprio Dragão Fashion Brasil, a semana de moda da cidade.

Os desfiles masculinos

O Dragão Fashion Brasil tem em seu line-up uma turma de estilistas que já são conhecidos e estabelecidos em todo o Brasil, já tendo participado de outras semanas de moda nacionais, como Lino Villaventura (paraense mas que abriu sua marca há 40 anos em Fortaleza), o cearense David Lee e o pernambucano Melk Zda.

Por outro lado, conta com uma lista de talentos emergentes, que se dividem uma proposta de balneário chic (como a Studio Orla, do cearense Thiago Maciel, que vende online para o Brasil todo), o streetwear maximalista do potiguar George Azevedo e a moda conceitual do paraibano radicado em Fortaleza Lindebergue.

Em comum, todos eles dividem valores como fé e ancestralidade quilombola, sustentabilidade e upcycling, mas também design e inovação.

David Lee

O cearense David Lee transforma o sertão festivo em uma silhueta urbana contemporânea na coleção “Ofertório”, com destaque para a camisaria que vem decorada com barras em balonê, com textura de crochês e bordados e ainda um trabalho de recortes em couro assinado por André Cardoso, da região do Crato no Ceará.

Há também boas opções casuais em jaquetas, calças e bermudas, e o avental que virou sua assinatura, tudo numa cartela de cores com base de neutros como preto, branco, marrom e cru, iluminada por tons vibrantes de azul e amarelo.

Lino Villaventura

Lino Villaventura é paraense mas viveu por muito tempo no Ceará. A marca foi lançada oficialmente em 1982 em Fortaleza, tendo como sócia até hoje Inez Villaventura. Desde 1999, Régis Vieira tornou-se o diretor criativo. A marca é conhecida pelos primorosos vestidos femininos de festa mas também por uma linha masculina esportiva e cosmopolita.

Com um desfile na Ponte dos Ingleses ao pôr-do-sol de um lindo dia de sol em Fortaleza, Lino seguiu com as comemorações de 50 anos de trajetória na moda. Primeiro entraram os looks pretos e brancos decorados com listras laterais de tecido, nervuras, túnicas plissadas e elementos funcionais. As peças vão ficando mais elaboradas nos recortes de patchwork, na combinação de cores e nas texturas das experimentações têxteis que é uma de suas características mais instigantes até hoje.

Melk Zda

A coleção “Flor da Meia-Noite” do pernambucano Melk Zda nasce do conto popular da flor do mandacaru, que floresce durante a madrugada cercada por espinhos no meio da paisagem árida e anuncia a chegada da chuva. A cartela de cores passa por tons terrosos, neutros, amarelos secos, laranjas queimados e azuis profundos, inspirados na luz da Caatinga no fim da tarde.

O contraste entre rigidez e delicadeza, ou entre proteção e leveza, surge por exemplo nas modelagens que alternam formas ajustadas e volumes amplos, ou em tecidos transparentes em contraste com superfícies ásperas e texturizadas, como os estudos de palharia, as referências à vestimenta do vaqueiro nordestino ou as peças de upcycling de jeans e resíduos de etiquetas industriais e embalagens recicladas.

Studio Orla

Foi uma estreia no Dragão Fashion Brasil, mas a marca Studio Orla completa 10 anos em 2027. O empresário cearense Thiago Maciel apresentou a coleção “Prosa”, em que apresentou criações inspiradas em mestres da artesania cearense, como Espedito Seleiro, nas aplicações pontuais, e Charles Lessa, nas estampas.

Crochê, richelieu, miçangas, macramê e toda tipografia de técnicas
artesanais valorizam as saídas de praia e roupas amplas, reforçando a ideia de uma imagem sofisticada de balneário de luxo.

Lindebergue

Lindebergue foi criado no Dragão Fashion Brasil, tendo vencido um concurso de novos talentos em 2000 e desde do ano seguinte figurando no line-up do evento. Nesse desfile, ele traz o tema recorrente da religiosidade, unindo sagrado e mundano, com espírito subversivo e de inadequação a gêneros binários.

Após uma viagem ao Vaticano, ele se inspira nas indumentárias católicas, nas vestimentas dos padres e na história do frade italiano São José de Cupertino (1603 – 1663), ao qual se atribui-se muitos milagres de levitação e êxtase. Assim, a batina é a base para uma série de túnicas ou “vestidos masculinos” em materiais variados, como jeans, brocados, crochê de fio de papel e tecidos resinados.

George Azevedo

George Azevedo é potiguar e traz a ideia do “Vento Forte” do Rio Grande do Norte para a coleção de moda urbana que cita os anos 1980 como referência em seu trabalho de contraste de estampas maximalistas em tons de cores vibrantes, peças decoradas com bordados e aplicações sobre tecido.

O estilista também trabalha com upcycling, transformando pipas de kitesurf em jaquetas e ressignificando itens do bazar do Instituto Riachuelo em outras peças de roupa. A camiseta com estampa que imita o logotipo do cigarro Hollywood e com a palavra “Gostoso” estampada com um sugestivo T maiúsculo foi uma das imagens mais compartilhadas do evento.

Almir França

O upcycling também é a premissa de Almir França, que apresentou uma coleção casual focada em soluções para o resíduo têxtil. Uniformes descartados foram reconfeccionados em calças, coletes e jaquetas em uma cartela de tons de verde, com destaque para o militar, finalizados com carimbos e estênceis com desenhos de cordel. As moulages fazem um aceno ao trabalho dos parangolés de Hélio Oticica.


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